Cotidiano

A mídia brasileira e a cultura durante a ditadura militar

Posted on: 1 Junho, 2009

 

 

Há 45 anos o Brasil atravessava uma profunda e dolorosa mudança política, social e até mesmo jornalística. O Golpe de 31 de março de 1964, que derrubou o então presidente João Goulart, acusado de comunista, foi um importante divisor de águas na história da democracia brasileira. O período da ditadura militar foi marcado, dentre tantas outras características, pela violência contra indivíduos e contra a imprensa.  Não é novidade que reportagens que desagradavam o regime fossem simplesmente proibidas de serem publicadas, sob pena de prisão, tortura e morte. Nos veículos de grande circulação, receitas culinárias eram publicadas no lugar de matérias contra o Governo. Com a adoção do Ato Institucional número 5, em 1968, durante o governo de Costa e Silva, ficou-se ainda mais complicado para os cidadãos e para a imprensa.

Na contramão da censura, foi criado o jornal semanal O Pasquim. Com humor e ironia, matérias sobre a situação política da época eram retratadas “discretamente” por jornalistas como Sérgio Cabral e Tarso de Castro, contando ainda com a participação de cartunistas como Millôr Fernandes, Ziraldo e outros. O Pasquim, apesar de ir de encontro com os interesses dos militares, ia ao encontro do interesse público. Era um tipo de mídia que manifestava características culturais de uma determinada época e de uma determinada população, embora corresse todo o risco da repressão. Mas a publicação não contava somente com noticias do Governo ou manifestações. Era basicamente comportamental, pois abordava assuntos como drogas, sexo, feminismo, divórcio, dentre outros. O lado político foi sendo desenvolvido conforme o amadurecimento da repressão da ditadura. Inúmeros jornalistas da redação foram presos e torturados a mando dos militares e até mesmo bancas de jornais que vendiam o semanário alternativo eram alvo de atentados a bomba. O Pasquim sucumbiu no início da década de 90, com seu último exemplar publicado em 11 de novembro de 1991.

O Pasquim foi um elemento contracultural, uma vez que valores e ideias de uma conjuntura eram questionados, embora maquiadamente.

 Um outro veículo importante do século XX foi a revista O Cruzeiro. Apesar de sua criação ter sido dada muito antes do período do regime militar, seu último exemplar foi publicado durante essa época. O Cruzeiro fazia parte das publicações dos Diários Associados, o maior conglomerado de comunicação do Brasil, fundado por Assis Chateaubriand. Entre os variados assuntos abordados, eram destaques notícias sobre os astros de Hollywood, atletas famosos e cinema. Os elementos da midcult elencados naquela revista eram usados para chamar a atenção da massa para os malefícios da ditadura e até mesmo burlar possíveis censuras. Matérias de interesse público eram sempre produzidas e elementos da off-Broadway eram uma constante na revista (uma vez que reportagens sobre a baixa cultura da época eram uma constante). O Cruzeiro misturava realidade com ficção, buscando de uma forma alternativa expor os problemas da sociedade da época. A cultura, em geral, era o centro das atenções do conteúdo da revista.

 Não são apenas importantes veículos midiáticos que fazem parte do leque de cultura de uma determinada época. A presença de O Pasquim e O Cruzeiro foram importantes na construção da imprensa que temos hoje, seja pela forma, seja pelo conteúdo. A cultura era retratada naquelas revistas de forma a expressar para os leitores de um modo claro, certas vezes despojado, e quase sempre irônico, fugindo da repressão militar.

 Acerca do assunto estudado, um outro aspecto cultural que pôde ser observado durante os 21 anos do regime militar foi a Jovem Guarda. Fundado pelos cantores Roberto Carlos, Erasmo e Wanderléia, o movimento teve início na metade da década de 60. Uma mistura de música, moda e comportamento marcou época e gerações, influenciando no modo de agir e pensar de milhões de jovens brasileiros. A midcult determinada pela Jovem Guarda consistia em arrastar, basicamente, os jovens, mas, aos poucos, os mais velhos também foram atraídos pelo movimento. O período de decadência da Jovem Guarda deu-se pela ascensão de um novo grupo. Também formado por compositores, a Tropicália foi um dos responsáveis pelo “esvaziamento” do movimento liderado pelo cabeludo Roberto Carlos.

 “A Tropicália é uma Jovem Guarda com consciência das coisas”. Assim Erasmo Carlos definiu o manifesto liderado por Gilberto Gil e Caetano Veloso. Com influência da cultura pop nacional, o Tropicalismo também tem ligações com o movimento antropofágico das décadas de 20 e 30 (liderado por expressivos artistas como Anita Malfatti, Mário de Andrade, Tarsila do Amaral, dentre outros). O misto de poesias de vanguarda concretista nas letras das canções com a estética do pop art eram características midcult, uma vez que eram mesclados o melhor da hype (poesias concretistas) com o melhor do conceito de off-Broadway ( canções pop que estão em ascendência para a hype).

O movimento Tropicalista não se constitui apenas na música popular brasileira. O cinema também sofreu influências . O Cinema Novo, de Glauber Rocha, tinha como característica fugir das grandes estruturas hollywoodianas e mostrar a realidade brasileira ao povo. Com “uma câmera na mão e uma ideia na cabeça”, Glauber Rocha e outros cineastas como Nelson Pereira dos Santos, Cacá Diegues e Joaquim Pedro de Andrade faziam de uma produção barata de cinema uma grande história a ser contada a muitas gerações. Era a contracultura chegando, mais uma vez, às grandes massas.

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3 Respostas to "A mídia brasileira e a cultura durante a ditadura militar"

Ola sou professora , estou desenvolvendo um projeto interdisciplinar com meus alunos, e em historia estamos nos debruçando sobre a produção cultural na epoca da ditadura. O texto de vcs esta muito muito muito bom. Vcs tem mais algum material sobrea epoca ou poderiam me dar dicas? Videos audios seriam super bem vindos

Obrigada pela força

madu

muito legal me ajudará bastante!!

Muito Bom essa matéria,vai me ajudar muito no meu trabalho de História!
:D

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