Cotidiano

Leitores, voltem para o curral! – (Três lições para afastar essas desagradáveis figuras)

Posted on: 26 Agosto, 2008

do Portal IMPRENSA, escrito pelo sensacional Prof. Manzano.

Três fatos me levaram a um questionamento na última semana: para onde vamos enviar nossos leitores? Eles, os leitores, não conseguem ser úteis, muito menos agradáveis. Atrapalham, dão palpites, são instáveis e, ainda por cima, querem sempre ter razão. Anos atrás, era muito fácil manter os leitores à distância: eles eram, no mais das vezes, seres imaginários. Todos tínhamos uma leve percepção do que eles desejavam, o que precisavam e o que pensavam sobre a realidade. Hoje, não. Bastou dar a eles um pouco de autonomia, e já vêm cheios de razão para cima de nós, jornalistas, como se soubessem o quanto sabemos, tivessem acesso às fontes que temos e acumulassem o repertório que nós acumulamos. E todos os jornalistas com quem converso são pessimistas: a tendência do quadro é piorar. Agora, até blogs os leitores têm. Imagine. Eles têm uma página na internet onde podem dar opinião, fazer comentários sobre o dia-a-dia e criticar a cobertura da mídia. Vejam só. Não satisfeitos, ainda nos procuram nas redações. Mandam e-mails, telefonam etc. Os jornalistas precisam se unir contra essa corja de leitores. Rapidamente. Antes que eles tomem o nosso lugar (as pretensões deles já são visíveis…). Vejam abaixo três histórias reais de como é possível reagir a essa nefasta presença.

Ato I – A barriga do rei
 
– Oi, aqui é Marilda, eu li a última edição da revista de vocês. Com quem falo?
– Com Roberto, sou o editor-chefe. Diga.
– Eu recebi a revista mais recente e fiquei com umas dúvidas, por isso estou ligando para vocês. O entrevistado de capa falou algumas coisas que me parecem estranhas.
– Ahn, ahn.
– Por exemplo, não tenho muita certeza de que seja verdade o que ele disse sobre…
– Escuta, você não tem o que fazer?
– E eu também não conhecia essa revista, minha cunhada, que mora na capital, me enviou um exemplar. Ela não circula no interior?
– Não, minha senhora, não. A revista ainda não chegou no curral.

Não, não é ficção. Os nomes não são Marilda nem Roberto, mas o diálogo é real. Essa conversa existiu entre uma leitora – que telefonou a IMPRENSA para desabafar sua angústia – e um editor de uma prestigiada revista premium de São Paulo. Horrorizada com o tratamento que recebeu do editor, a leitora, que também é jornalista, não se conteve e ligou para nossa redação. A chamada caiu na minha mesa. Logo no começo da conversa, era inevitável que eu perguntasse a mim mesmo o que eu tinha a ver com essa história. Eu poderia terminar o telefonema burocraticamente, lamentando; ou então ouvir o que ela tinha para falar, o que fiz durante 20 minutos.
Delicado como um Iugoslavo bêbado, o editor não suportou o questionamento sobre seu trabalho. E pior: partiu para o ataque, puro e simples ataque. Essa é a estratégia “afastemos os leitores com a truculência que eles merecem”. Costuma ser eficiente. Para sempre.

Ato II – O João-sem-braço

A banca é um território de guerra. Os fechadores de capa, os marketeiros e os editores estão cada vez mais preocupados: como fazer para conquistar a atenção do leitor em um espaço tão beligerante? Uma revista voltada para mulheres de classe C – cuja fórmula se repete à exaustão; fofocas, beleza e culinária – publica semanalmente um encarte de receitas. A dessa semana era irresistível para quem tem devoção por junkie food: uma receita exclusiva de coxinha, cuja massa é feita em um liquidificador. A receita está lá, cristalina e didática: caldo de legumes, farinha de trigo, requeijão cremoso, iogurte e óleo. Só que misturados, eles se parecem mais com uma massa de bolo do que algo que possa ser modelado como uma coxinha, sedutora. A vítima dessa furada fui eu mesmo. Um cozinheiro nas horas vagas, fã de comida de bar e leitor voraz de revistinhas de R$ 1,99.
A receita desandou. Li, reli, li novamente. Não havia feito nada de equivocado. Nada, nada. Simplesmente a receita – que era a capa do encarte – estava errada.
Essa era uma boa oportunidade para testar o relacionamento da redação com seus leitores. Liguei até o Serviço de Atendimento ao Consumidor da editora. Eles me passaram um número telefônico que não existe. No dia seguinte, liguei até a redação e falei com a figura que atendeu o telefonema. Expliquei o meu drama, sem me identificar.

– Comprei a revista dessa semana por causa da receita de coxinha da capa. Só que a receita está errada.
– Como assim, errada? Perguntou-me a jornalista.
– Não deu certo. O resultado final da mistura não dá ponto o suficiente para que a massa seja manejada como a de coxinhas.
– Então…, pausou reticente, eu vou ver aqui com a redação. Talvez a gente publique novamente a receita certa.
– Talvez?
– Qual é seu nome?
– Rodrigo.
– E seu número?
– Número?, replico a pergunta, imaginando se ela queria saber quanto eu calço.
– Do seu telefone.
– Ah, sim. Vocês vão me ligar?
– Vamos ver. Talvez.*

* Até agora não ligaram. Quando alguém da redação entrar em contato, atualizo o texto da coluna.

Essa é a estratégia “nós fingimos que você é importante (criamos SACs, personagens de relacionamento, apelidos carinhosos, editoriais com bastante intimidade etc) e você finge que está satisfeito”. Dá trabalho e é caro. Mas raramente alguém vai se queixar ao bispo.

 Ato III – O louco

Um notável comentarista econômico do rádio e televisão não gosta de ser questionado. É tão vaidoso que, inclusive, pinta os cabelos. Claro, além de falar todo dia no rádio, às vezes aparece na televisão, bem à noite, desfiando suas opiniões sobre economia, política e finanças. Entende, portanto, bastante das leis da concorrência. Ele e um ouvinte da emissora de rádio trocaram, há algumas semanas, a seguinte correspondência por e-mail, que chegou até à redação de IMPRENSA. Veja os e-mails abaixo:
DE: ouvinte
PARA: comentarista

Caro,
Acabei de assistir a uma chamada na Rede Globo: no segundo dia de greve dos metroviários paulistanos, mais de 3 milhões de passageiros estão sendo prejudicados… Por que não há manchetes em letras garrafais nos jornais anunciando o CAOS METROVIÁRIO? Será que a professora Marilena Chauí está recebendo a resposta a sua pergunta “Mas pobre trabalhador nasceu para sofrer e morrer, não é?”?

Abraços,

Em tempo: A propósito, quantos passageiros aéreos foram mesmo prejudicados no quase 1 ano de CAOS AÉREO?

***

DE: comentarista
PARA: ouvinte

você lê o quê?
está em todos os jornais, esteve em todos os telejornais de ontem, está aqui na emissora o tempo todo.

***

DE: ouvinte
PARA: comentarista

Desculpe… acho que minha ironia foi fina demais que acabou passando despercebida… Deixe estar. Abraço grande,

***

DE: comentarista
PARA: ouvinte

é esqueça…
tente as emissoras do bispo

*****

Sim. Quando você não suportar seu leitor, ou ouvinte, ou telespectador, ou usuário, envie-o para a concorrência. É uma dupla solução: você se livra dele e, de quebra, passa a infernizar a redação de seu vizinho, prejudicando a produção, minando a paciência e esparramando discórdia no território inimigo. Maquiavel não seria tão brilhante. Essa estratégia trata-se da “eu tenho audiência e circulação o bastante e paciência e tempo de menos. Um a menos não nos fará falta”.

E você, o que vai fazer com seu leitor?

2 Respostas to "Leitores, voltem para o curral! – (Três lições para afastar essas desagradáveis figuras)"

S E N S A C I O N A L

1º-Quanta falta de criatividade…

2º-Não entendo pq tanta babação de ovo com esse professor….

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